“Isto não é solidão. Em solidão nós já vivíamos. Isto é tristeza. Tristeza por nos proibirem de ver, abraçar e beijar quem mais amamos”


“O ano não tem sido nada bom”, desabafa M.ª Emília Prior. Aos 84 anos está de portão aberto, na Saibreira, Cortes, para que o sol entre pela casa enquanto arruma umas mantas. O marido, sentado ao lado, ouve atento a conversa sobre si. “Adoeceu e nem quando esteve internado no hospital o pude ir ver por causa disto… e assim é um problema”, conta, atarefada. Até que se levanta, suspira e remata: “Isto não vai, nem vem. É só máscaras, na televisão está sempre a dar a mesma coisa, é uma tragédia”.

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Ao longo do último mês corremos os vários lugares da freguesia e traçamos um perfil dos cortesenses de mais idade, ao fim de um ano de pandemia.

Ruas vazias e pessoas que, com ou sem máscara, escondem medos, mas sobretudo saudades. Muitas saudades. Mais do que receio da pandemia, de serem infetados ou poderem morrer, têm saudades de abraçar os netos, de juntar os filhos à volta da mesa ou de conversar no meio da rua.


“Há os idosos que estão em lares ou ligados a instituições e que têm sido acompanhados. E há os idosos que vivem de forma isolada. Para essas pessoas, efetivamente, não houve resposta e é difícil dá-la”, concluiu o presidente da Junta de Freguesia, José Cunha.


Uma reportagem para ler na edição n.º400 do Jornal das Cortes, de Abril de 2020