
Com quem parte e com quem fica
Não é fácil despedir-se. Ainda menos de forma aparentemente distante e fria, neste período de pandemia, porque distantes do contacto visual dos defuntos, a quem estamos habituados. Porque privados de celebrar na igreja de forma serena e tranquila a vida, as memórias, as marcas indeléveis sempre presentes, os desejos da não separação, os pedidos de intercessão, os votos de reencontro…
Não é fácil – nunca é – acompanhar quem sofre nesta fase, pois estamos praticamente impedidos de estar presentes; é quase impossível fazer um afago ou dar um abraço aos familiares. Mas podemos sempre rezar por quem partiu e agradecer pelo bem, exemplo, que foram para nós ou para outros. Podemos, pelo menos telefonicamente, dizer algumas palavras aos familiares, ou mandar uma mensagem, para confortar, dar ânimo, estendendo laços humanos e alargando a comunhão de sentimentos, que nos unem a quem está dorido.
Para quem ama, mesmo nestas circunstâncias, não há mesmo separação; apenas uma despedida porque a brevidade da vida nos aproxima dessa realidade natural e comum que nos iguala a todos, a morte, a “irmã morte” (S. Francisco de Assis). Realidade que o nosso mundo quer hoje viver ou vive mesmo em fuga. Porém, lamenta despedidas rápidas, pela dor da partida dos que antecederam nesse caminho.
Com razão dizia Richard Bach: “não há longe nem distância”.
Dia da Mãe
Parece-me que é todos os dias. Mas há tantos dias em que a Mãe, a “minha Mãe” o foi, é, será sempre; e em inúmeras vezes nós nada vimos, não percebemos, nem reconhecemos, por isso não agradecemos.
Depois de Deus, é quase sempre à nossa Mãe que tudo devemos. Quanta gratidão há para dizer e expressar, mesmo sem palavras, na presença paciente, no silêncio, no acompanhamento, no afago ternurento e na ajuda caridosa, na escuta das suas vidas e histórias. Sobretudo quando lhes faltam as forças ou as faculdades, deve crescer o nosso amor. Porque o dela, o amor da Mãe, está sempre lá. Mesmo se já não é dito, quando sobrevém a doença mental ou demência, qual peso-dor-mistério que nos ultrapassa. O amor que nunca passa e é linha contínua entre o tempo e o eterno… o da Mãe.
Já pensaste no modo de criativamente surpreender a tua, neste tempo de confinamento?
O tempo
Nesta crise, e sempre, parece-me que acontece comigo e com muita gente, sobra tempo e falta tempo, passa o tempo e aumenta o tempo, corre o tempo ou nunca mais passa o tempo.
Vem-me à imagem o quadro surrealista do relógio de Salvador Dali…
Mais eloquente é mesmo o início do desafiante capítulo 3 do livro bíblico do Eclesiastes ou Qohélet. Porque tudo tem o seu tempo. Proponho uma atenta leitura, porventura em família.
Cada um tem também o seu tempo e há o tempo cronológico com que a sucessão dos segundos e horas, dias e anos nos marca. A nossa vida tem o seu tempo e cada um faz ou desfaz o seu tempo ou tempos.
Popularmente dizemos: “não há tempo a perder”. Não desperdiçar o tempo é uma grande virtude; pois o tempo não volta para trás. O ontem já não existe e o amanhã não o conhecemos. Só temos o momento presente, que acaba de passar num ápice e já é passado. Fazemos planos futuros, projetamos e sonhamos, sofremos frequentemente por antecipação, mas ainda não sabemos se chegaremos lá. Nada controlamos, nem um só cabelo podemos acrescentar ou um segundo à nossa existência temporal.
Dizemos ou ouvimos dizer, em bem, a quem já aprendeu com a vida, especialmente os nossos seniores ou anciãos, esta frase sábia: “agora, é um dia de cada vez”.
E há o não-tempo, ou tempo infindo, incomensurável, eterno… o tempo de Deus, expresso poeticamente nos Salmos: “a minha alma tem sede de Vós, meu Deus”, “como o veado anseia pelas águas vivas, assim minha alma anseia por Vós, Senhor”. Ele é o único que foi, está e é para sempre. Tantas vezes andamos às cegas num tempo de correria louca de tempo esquecido e desperdiçado. E nem vemos porquê e nem para quê. Oxalá que neste tempo aprendamos…
Gosto desta síntese de Santo Agostinho nas suas “Confissões” (a sua autobiografia – por sinal, uma boa leitura para este tempo): “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava… Estavas comigo e eu não estava contigo… Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira.”
