Estava a pensar com os meus botões se sim ou não vale a pena abordar esta difícil temática. A vida, quando tanta gente fala da morte e banaliza a vida e prefere fixar-se na morte. Claro que me refiro à questão da eutanásia. Não vou aqui fazer nenhum tratado formal sobre o assunto, mas, porque gosto muito de viver, mesmo sabendo que terei de passar pelo mistério enorme da morte. Eu amo a vida e acredito que esta vida presente é o primeiro passo para saborear a vida eterna. A fé em Deus, no Deus que Jesus Cristo deu a conhecer, faz-me mais humano, molda-me, ampara-me, faz-me sonhar e viver na esperança. E mais capaz de compreender a vida e o sofrimento próprio alheio. Ainda que não saiba nada do que me espera… estou certo de que chegarão momentos de sofrimento e dor, de dúvida, talvez pior. Mas isso não me tira nem diminui o amor pela vida.
Há hoje uma grande fixação nos animais, atribuindo-lhe uma importância que não têm mesmo. No meu entender, é mais uma das fugas atuais à vida humana real, como são fugas a relativização da vida, a informação em catadupa, o palavreado ou verborreia sobre tudo e sobre nada, a crença na ciência de forma absoluta. Enfim, é a desvalorização da vida, ao ponto de se achar que a vida é agora tão importante e valiosa, e, logo a seguir, perante a mais pequena ou a maior dificuldade ou sofrimento – como se estes não fossem parte da vida – desistir e deitar fora. Que grande contradição! Ouso mesmo dizer que grande desfaçatez e falta de senso! Os próprios animais – que não são pessoas, não nos deixemos confundir nem nos iludamos – nunca abandonam os seus pares, seja qual for a situação. Falta-nos resiliência ou força para lutar contra as adversidades. Falta também, é bem verdade, a fé em Deus, a fé na eternidade, a fé na própria vida. E falta muita humildade, o que não deixa reconhecer a vida como dom, mas como posse ou direito de cada um.
É outra fuga, a si mesmo, à humanidade e à humanização; é a habitual – mas não normal muito menos humana – idolatria do individualismo e do utilitarismo, que leva à manipulação da vida, própria e do outro; e ao descarte da mesma. Ainda me parece mais falta de senso comum e de fé na vida assumir que não há nada a fazer pelo outro que está em sofrimento senão facilitar-lhe a morte. Parece-me que, mesmo para quem não tem fé mas crê nas ciências humanas e no humanismo, deitar fora psicólogos e psiquiatras, que têm a missão de ajudar a levantar a pessoa a partir da autoconfiança, dos valores, e de a amparar, de a auxiliar a não ficar no fundo ou a sair do sem sentido. Os acompanhantes espirituais têm aqui também um importantíssimo papel. Sou claro: não me entra na cabeça nem no coração que quem presta cuidados de saúde, profissional ou não, esteja voltado para a morte como solução. Na sua mensagem quaresmal, o Papa cita o nº 123 da exortação apostólica Cristo vive, especialmente dirigida aos jovens: «“Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia que te liberta de toda a culpa. Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo”. A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do Espírito Santo é sempre actual e permite-nos contemplar e tocar com fé a carne de Cristo em tantas pessoas que sofrem.» É isto que diz Jesus Cristo – como todo o seu potente e amor sem limites pelos humanos – diz à humanidade de todos os tempos de forma clara, a crentes e a não crentes que ousam acreditar na vida. Se para nós, cristãos, acreditar na vida eterna é fundamento, temos primeiro que crer na Vida humana como valor supremo que Deus ama. E fazer tudo pela vida! Sim, não podemos, nunca, deixar de crer que o Amor é que transforma tudo e dá sentido a toda a vida e à vida toda, mesmo nas maiores situações limite, como são o sofrimento extremo, físico ou psíquico, e a proximidade da morte. É amar, mesmo muito, o mistério da vida. E que bom que era que fosse tanto quanto Cristo a amou e ama. É o seu amor que faz ver tudo novo e diferente pela alegria, esperança e paz com que perfuma e é capaz de colorir a vida. Crer nisto, estar aí, não desistir, dar-se, lutar com todo o amor, perante o desespero, a dor, o desânimo, a depressão, a angústia e o sem sentido, é ser e fazer-se Irmão, Próximo, Solidário, isto é, Homem! É tocar a Vida eterna, já aqui.
Pe. Bertolino Vieira
