Lucília Sousa ou a Sarabuga

Um sorriso na cara e a vontade incessante de servir bem e o melhor: assim nasce a ideia arrojada que carrega um nome engraçado de uma das famílias queridas da terra.

A manhã ainda vai a meio, mas a dona Fernanda já está perto da paragem de autocarros da Reixida. De sorriso fácil e bem rasgado, por entre algumas cantigas antigas e dois dedos de conversa, vai dando uns toques de marketing e relações públicas por quem ali passa. Em pouco tempo junta as amigas, recolhe atenções e vai conquistando clientes para o novo negócio da filha. A roulote chega e, mesmo antes de estar estacionada, já está a apressar o processo para que haja brasas ou se façam bifanas para quem está a chegar. Ri muito e mostra-se claramente orgulhosa pelo projeto. «Sem dúvida que a impulsionadora disto tudo é a minha mãe. O desejo de servir e agradecer, a felicidade que traz, a garra com que faz as coisas, toda a amizade e união que gosta de ver na família: ela está a darnos referências e bases para a vida»

Lucília Sousa sempre teve vontade de estar perto das pessoas e servir bem. «Queria fazer algo para tirar mais partido do meu trabalho.
Gosto muito de conviver, estar com pessoas, agradar e servir bem. É um bichinho», explica. Depois de vários empregos em diferentes áreas, decidiu arriscar. “Ando a trabalhar neste projeto há quase dois anos e durante todo este tempo existiram alturas menos boas, mas o facto de não ter vinte anos, de não ter medo de trabalhar e saber exatamente o que quero deu-me força e segurança para seguir em frente sem parar para pensar”, confessa.

O resultado foi uma ideia arrojada: uma churrasqueira com frangos grelhados na brasa, bifanas saborosas e um molho especial. “Churrasqueira Sarabuga” assume a alcunha da família e leva mais longe a boa disposição que lhe é tão característica. “Andei às voltas com o nome… Mas depois, estava com uma pessoa amiga que me deu uma grande ajuda e muito apoio em todo este projeto, falei de Sarabuga e achámos bonito, que era diferente… e ficou”, acrescenta. A alcunha vem da família da Reixida, mas a história que a fundamenta vai além da freguesia. “A minha mãe conta que, antigamente, numa aldeia para os lados de Fátima, existia um homem com muita força que era conhecido como Sarabuga.

Um dia o meu bisavô ia a passar numa fazenda e foi ajudar uns homens que estavam a tentar levantar uma oliveira. A força dele, aliada à deles, foi suficiente para levantar a árvore e começaram todos a dizer que ele era como o Sarabuga. E então o nome ficou”. Orgulhosa das suas raízes, confessa-se feliz e impressionada com o resultado das primeiras semanas: “O meu tio Diamantino chegou ao pé de mim há dias e disse-me: Óh Lucília, deixa-me eu dizer-te uma coisa e não leves a mal… Então o tio julgava que tu vinhas com uma carrinha e tiravas de lá um grelhador de latão… E afinal é isto tudo, tens aqui uma casa e ainda por cima com este nome Sarabuga! Parabéns, fiquei mesmo muito orgulhoso! (…)

A minha mãe diz que se a minha avó fosse viva estaria muito feliz e até o meu pai, que não costuma ser tão expressivo, elogia o frango e especialmente as bifanas. Tem sido mesmo muito bom”. O segredo está em acreditar: “Eu acredito que se não tivermos algo que nos dê certezas andamos sempre com medo e a vacilar… E eu tenho fé e acredito muito. Tenho a sorte de ter uma família muito boa e amigos que me apoiam imenso. Acredito no trabalho, tenho fé e acredito especialmente que Deus vai continuar a abençoar-me com saúde e força. Depois há também o factor sorte, ter qualidade, boa apresentação, simpatia e tudo o resto que ajuda…”. A vantagem de ter um negócio sobre rodas é que pode ajustar os locais consoante a avaliação que faz às necessidades dos clientes. Por enquanto, às terças, quartas e sextas-feiras, a partir das 17h00, está na Maceira, junto às bombas da Cepsa; às quintas, a partir da mesma hora está nas Chãs, junto à igreja; e aos sábados e domingos, a partir das 11h30 até meio da tarde, encontra-se na Reixida, junto à paragem de autocarro que fica na estrada principal. “Estou a ser muito bem recebida em todo o lado, mas é sempre diferente quando se está em casa e as pessoas nos conhecem”, admite.
Lucília Pereira Alves de Sousa é da Reixida, nasceu 31 de Julho de 1964, filha de Maria Fernanda Pereira, da Reixida, e de Rogério Sousa, do Telheiro. Grata por ter tido uma infância feliz, admite que é comum agradecer à mãe por a ter deixado brincar tanto. “Era uma maria-rapaz, sempre com o meu irmão e o meu primo, brincava ao elástico, ao berlinde, ia para a zona do pego do rio Lis, mesmo sem saber nadar… e só lá para os onze anos é que comecei a brincar com bonecas”, diz. Estudou na Reixida, no tempo da telescola, e tem pena de não ter conseguido estudar mais. Na vida já teve vários em pregos, desde o primeiro numa fábrica de farinhas, de onde saía sempre carregada de pó, passando pela Tosel ou as Caves Vidigal, o ramo da imobiliária, uma pastelaria, a geriatria ou até o trabalho no hospital como auxiliar. “Já tive vários empregos e não me arrependo nada. Acredito que ganhei muito conhecimento profissional e até pessoal de várias áreas muito interessantes o que me fez perceber o que era importante e o que eu queria”, confessa a sorrir. Quando não está a trabalhar gosta de coisas simples como relaxar, apreciar paisagens, estar na natureza, ler, ouvir música, dançar e até fazer pequenas bonecas de trapos. Casou em 1982 e teve dois filhos, o João Carlos e o Eduardo que têm sido “os maiores companheiros e amigos da vida”. Agora já tem um neto e confessa-se uma avó babada: “A minha mãe costuma dizer que netos são filhos com açúcar e é verdade. Sou uma sortuda por ter tanta coisa e gente boa na minha vida”, termina a sorrir.

Patrícia Gonçalves